27/11/2009

Karma Police

Radiohead mindfucking me these days:

Eu vou sentar-me no fundo, bem no fundo. Na última carteira. Sente-se à minha frente, eu quero olhar pra sua tristeza, eu quero sentir o perfume mórbido impregnado na sua nuca. Deixe-me tocá-la, por breves dois instantes. No primeiro, eu quero acariciar seus cabelos, beijar-lhe a cabeça e enganar-te. Conto-lhe então meu segredo: Eu também compartilho da sua melancolia. Ela também me atordoa, mas não, não agora. Chego a gostar dela… Faz parcer-me contigo, faz-me compreender seu olhar, sempre distante, sempre triste, acompanhado de um sorriso amarelo de canto de boca, numa falsa paz.

No segundo, eu vou buscar amparar-te, apesar de estar tão perdida quanto você, mas não importa, eu vou procurar forças na minha fraqueza, e nas minhas palavras, encontrarás um refúgio. E em troca disso, por favor, só espero que se sente à minha frente, que deixe-me sentir seu desânimo, sua adorável indiferença. Eu quero me identificar com tudo isso. Gostaria de poder ser assim tão descrente, de poder me enterrar nesse seu mesmo inferno ilusório, onde não há vida, existe-se apenas. Onde tudo resume-se num longo arrastar de horas, sem mudanças, sem ações, afinal, nada vale mesmo a pena, nada merece sua atenção.

Mas, ao contrário disso, mais difícil que toda essa desolação é a luta incessante por breves sorrisos a que me submeto todos os dias. Aquela que insiste em esquecer de lembrar todo o passado ruim, todas as amarguras e dissabores vividos. E, pensando bem, este último penar da alma a que me refiro, requer mesmo muita coragem e esforço, e você não seria capaz, nem forte o suficiente para tanto, não é mesmo? Você tem cuidado muito mal de você.

16/11/2009

rum, cor de mão

E quando dei por mim estava no banco de trás de um táxi qualquer cujo condutor murmurava uns gatos pingados sem sentido algum. Caía o crepúsculo e conforme o carro avançava apressadamente, o céu não hesitava em se tingir de rum. Para onde eu iria, não me lembro ao certo, tampouco do que estava fazendo lá, acanhada, naquele banco quase público, onde tanta gente, nesse mesmo dia, já deveria ter se sentado e recitado outros tantos gatos pingados.  Mas não importava, porque do banco da frente, ao lado daquele mesmo condutor de meia idade, você segurava minha mão, apertando-a, como se não quisesse soltá-la de forma alguma.

Aí eu também percebi que estava feito tola te olhando, traduzindo em meu semblante o que se passava vorazmente nas minhas veias entupidas de sangue pulsante que oxigenavam a torrente de pensamentos e sentimentos a reduzirem-se naquelas mãos entrelaçadas. Acredite, a minha cara era mesmo de tola: Como é que fui lá gostar tanto desse par de olhos castanhos? E que, dependendo da luz a que são expostos, clareiam-se, e chegam a se esverdear, tão lindos são?

Você respondia a conversa do homem estranho, distraidamente falavam sobre futebol, assunto que eu não entendo de nada e, sinceramente, não pensava que você entendia. Mas não, eu achava simplesmente encantadora a sua interação à respeito do dito cujo com o dono dos gatos pingados. Nunca, em toda a minha vida, ouvir sobre o jogo do Flamengo e o possível rebaixamento do Botafogo, fora tão adorável. Eu continuava a olhar-te, e a confabular o que agora escrevo. Você não notava, parecia estar atento à conversa, mas não soltava a minha mão de jeito nenhum.

21/10/2009

Capítulo 6 – O gran finale

Um último suspiro naquela atmosfera hipnotizante: Entro no táxi. O condutor, apartir de evidências claras que eram as bagagens, perguntou de onde éramos. A resposta pareceu despertar no pobre homem de meia-idade uma torrente de lembranças e infortúnios que, na urgência que pareciam demonstrar, começaram a sair em forma de desabafos contínuos – “Tenho saudades da minha terra, Minas Gerais”. E não parecia mentir, seus olhos, carregavam um nítido sofrimento, pareciam ver diante de si um filme da própria vida que tiveram, enquanto o dono destes narrava histórias de sua mocidade e de como agora detestava morar no Rio de Janeiro.

Ainda me recordo de suas palavras: “Isso tudo é uma ilusão, vivemos em guerra, esta cidade é um maldito inferno e nos transformou em verdadeiros animais”. Uma visão bastante contraditória a tudo o que eu até então vinha pensando a respeito deste mesmo inferno, mas não deixava de ser real, a perspectiva de quem está infiltrado na cidade. Chegamos ao aeroporto, saímos do táxi, apertei fortemente a mão do taxista, olhei nos seus olhos, mostrando um resquício de humanidade e condolência para com os pesares de um semelhante: “Mando saudações suas para minas!” Disse eu. Ele abriu um sorriso indescritível.

Novamente, o check-in foi feito, entramos no avião, era um último adeus. Conforme ia me distanciando da cidade maravilhosa, lágrimas rolavam em meu rosto, os finais são sempre mais difíceis. A música que coloquei para tocar era a trilha sonora perfeita, e lá estava eu a conjecturar: O Rio de Janeiro é mesmo uma moleca de pernas compridas e malicioas, com um futuro bem incerto pela frente. São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração…

21/10/2009

Capítulo 5 – Amor ao primeiro disco

Acordamos oito horas. Para o lugar que iríamos era preciso estar de pé cedo da manhã, com roupas largas e frescas, chinelos de preferências, nada que chame a atenção, bolsa nem pensar, o dinheiro vai às escondidas mesmo, muita disposição e alegria no coração. Pra começar do fato de que nem eu e nem Lívia sequer sabíamos onde ficava o centro da cidade, percebíamos que não havia previsões certas de nossa chegada. Mas graças a algumas orientações do meu tio, conseguimos dar o primeiro passo corretamente: Pegar a linha certa do metrô.

Mas, levando em consideração minha pouca experiência com esses mecanismos metropolitanos banais e ao mesmo tempo surpreendentes para mim, realmente não sabia o que esperar de um metrô. Mas ao finalmente chegar ao ponto onde desceríamos as escadas e entraríamos na boca deste pequeno submundo de locomoção, pude perceber a variedade de pessoas que por ali circulavam, tudo isso se intensificou apartir do momento em que entrei no veículo propriamente dito, e me punha a confabular incessantemente a respeito do destino de todos aqueles homens e daquelas mulheres, que pareciam ebulir pelas portas automáticas a cada nova estação.

O comportamento de cada um dos passageiros pouco revelava sobre suas respectivas identidades ou ofícios. Uns transitavam entre si, mas pela rapidez com que se movia o metrô, sempre agarrados aos assentos ocupados ou a uma espécie de cano que, atrelado ao chão, servia de apoio para quem não ousava entrar na briga pelos pequenos bancos. Outros conversavam conversas pequenas, sem significado algum e sem ter, necessariamente, despertado interesse aos participantes. Já outros, como eu e Lívia, contentavam-se em fixar os olhos em qualquer lugar, e permanecerem em silêncio, mesmo tendo em mente o barulho avassalador dos pensamentos e conjecturas sobre tudo e qualquer coisa que se passava ali mesmo, dentro daquela rápida máquina, que despejava e recolhia mais passageiros a cada nova parada.

Cinelândia – é, ficamos por aqui – bem em frente ao teatro municipal, à biblioteca e ao museu de belas artes, onde passamos um bom tempo a espiar rapidamente por alguns quadros, eram tantos! De vez em quando me sustentavam o olhar por vários minutos, como se pedissem para serem olhados, adentrados por alguém. Bem, conseguiram, quando demos pelo tempo já havíamos passado horas no museu e tínhamos de apressar o passo para chegar às ruas centrais, as mais infernais e movimentadas, que eu anseava conhecer e temia ao mesmo tempo. Mas, novamente, pulando diversos detalhes que, pela falha memória ou por inconveniência, serão considerados desnecessários: O dia, de fato, rendeu. Andamos até os pés doerem, até o corpo implorar por descanso, mas não, eu tinha de percorrer aquele lugar, pelo menos uma vez, queria atravessar aquela densa massa de gente, de odores, de conversas e gritos e anúncios. Além disso, tinha eu em mente um desejo de consumo bastante peculiar, que acreditava poder ser saceado em alguma loja de equipamentos de som abandonados, lá mesmo, naquelas ruas estreitas que permeavam o morro do Cantagalo.

Foi quando, já nos últimos estabelecimentos a serem checados, que eu a vi: Linda e intacta, a destacar-se das demais. Um pouco usada, confesso, mas em perfeito funcionamento. Os dois tipos de rotações, a agulha e o rádio embutido pareciam compor, naquele acoplado de madeira, o par perfeito para quem almeja ter uma compacta… vitrola! Eu realmente não conseguia acreditar que trazia, já em meus braços, a materialização do que eu julgava ser a forma mais esplêndida de se degustar uma música, um disco, um artista. Acreditem, ter carregado algo de peso razoável e de valor tão imensurável, protegido apenas por uma espécie de embrulho, por todo o centro carioca, dentro do metro, e ainda, em Ipanema (correndo o sério risco de ser assaltada) valeram tanto à pena que faria todo o percurso novamente, se necessário.

As dores nos ombros e nos braços e pernas eram gritantes, mas desapareciam conforme eu colocava a rodar o primeiro vinil, Joan Baez, e ouvia os chiados inconfundíveis do mecanismo próprio da vitrola, tão singular e puro, que eu acabara de adquirir. Parecia mesmo uma criança a regular as rotações do aparelho, a mecher no volume e mudar a agulha de posição de modo a mudar a música. Que achado! Uma façanha e tanto para quem nunca estivera naquela cidade. Me sentia de missão cumprida ao portar tão raro artefato.

Depois do almoço, se é que pode-se chamar de almoço uma refeição às cinco horas da tarde, em Ipanema, ousamos ainda alguns passos para tomar sorvete, o cansaço teria de esperar. E eis que nos damos por sentadas, enfim, à frente da sorveteria Itália, exauridas e recostadas ao vidro. Inicialmente trocávamos algumas palavras, mas uma espécie de acordo mútuo de fadiga subentendido nos fez calar, agora olhávamos somente, um senhor despertava a atenção de todos ao insinuar um autêntico jazz numa espécie de trompete, na frente da praça. Trajava vestimentas sujas e rasgadas, portava uma partitura e não parecia querer moedas, tocava simplesmente. Coisas que só acontecem aqui, pensava eu, em plena Visconde de Pirajás.

Já em casa, jogadas, eu cá no sofá, Lívia lá na cama de casal, suspirávamos – sobrevivemos ao centro. Meu tio chegou, dormir que nada, fomos ao Blue man group, aqueles percussionistas azuis que têm criatividade de sobra e recheiam o show de mensagens subliminares e humor de bom gosto, sim, humor! Além de boa música, é claro, prova disso foi quando tocaram Baba O’Riley, momento que eu quase dei um ataque de emoção, porque foi lindo. A noite já tardava e a nós, cabia comer algo e dormir para amanhã pegar o avião de volta. Me doía ter de pensar na despedida, confesso.

20/10/2009

Capítulo 4 – garota de Ipanema

Segunda -feira:

Acomodada na cama de canto do quarto-sala-cozinha do apartamento dormia eu um sono pesado. Logo pela manhã sai meu tio para o tão esperado seminário e horas depois, às onze eu diria, acordo com um bilhete ao meu lado, era a Lívia que dizia estar em Copacabana, voltava em breve para almoçarmos. Confesso que, neste único dia, o tempo não colaborou muito com a nossa estadia e o céu desabava em umidade litorânea. Mas assim que a chuva deu seus indícios de calmaria, pegamos um táxi rumo Garcia D’Ávila sem hêsitos, onde na certa encontraríamos um bom restaurante. “Delírio Tropical”, foi o que achamos, aparentava ser bom – e o era. Uma espécia de self-service alternativo com uma variedade incrível de pratos autênticos dos próprios cozinheiros. De comida vegetariana à empanados marroquinos; eu confirmava mais uma vez o bom gosto carioca. Decoração urbana, sem um tema propriamente dito, dois andares, vista panorâmica da cidade, luzes amenas e muitos gringos e surfistas.

Depois do almoço de lamber os beiços, a chuva, antes tímida, insistia cair com voracidade. Mas, não querendo voltar para casa, buscamos refúgio no Laura Alvim – queríamos entrar em qualquer sessão de filme, ou simplesmente entrar. Lívia sugeriu que víssemos “Caramelo”, que estava quase começando (com aquela chuva do lado de fora e sem outros filmes que atendessem nossa necessidade de entretenimento imediato, topei).

Mesmo quase entrando na sala de cinema errada, entre tropeços e “onde fica o assento C?”, finalmente nos acomodamos para assistir a essa produção franco-libanesa focada nos dissabores afetuosos de certas mulheres, jovens e… não tão jovens assim. A trilha sonora do longa, envolvente e predominantemente árabe me chamou a atenção, bem como seu histórico de premiações em Berlim e a escolha de mulheres de belezas tão diferentes para a interpretação dos papéis. O elenco, pasmem, era inteiramente estreiante. Se não tivesse lido isso na revista, juro, nem perceberia.

Saindo do cinema voltamos pra casa, esperaríamos meu tio e depois, mais pizza, conversaiada, sessões de terapia, gargalhadas e muito damasquinho.

Terça-feira:

Amanheço cedo, nove horas, café da manhã: Na rua. Apronto-me, descemos eu e Lívia (meu tio encontrava-se mais uma vez no seminário). Tínhamos uma missão: Desvendar os mitos e encantos da charmosa Visconde de Pirajás, e da Garcia D’Ávila também. À mão: Uma lista de lojas cuidadosamente selecionadas, mais por parte da Lívia do que por minha, e na cabeça, um deleite incrível de andar tão descompromissada com o tempo num lugar tão bonito e impassível das tradicionais feiuras urbanas.

Mas era impossível começar qualquer coisa, nada me tirava da cabeça a vontade de provar um cafezinho tipicamente carioca, e ainda, em Ipanema. Arrastei minha fidalga pro que parecia ser uma boa opção e, como de costume, acertei na cafeteria. Esta, já de tradição, tinha realmente uma história estampada em suas paredes. Além de poder degustar um cafezinho forte e bem feito, averiguei a venda de grãos de todos os cantos do país, charutos cubanos e moedores antigos de café, nada escapava ao meu olhar clínico. Após a refeição matinal, lojas e mais lojas, gringos, madames, cachorros, vendedores, carros, um mar deles! Mais lojas, brechó – onde me encantei um um mar de antiguidades à preço de banana! Mais lojas, ruas e mais ruas.

Batemos pernas, um parque, uma banca de revistas, mas não qualquer uma, esta só apresentava relíquias de colecionadores, ou simplesmente revistas e jornais antigos para quem fez da nostalgia um hábito. Os preços altos denunciavam que a procura, para minha surpresa, era muita, e a demanda, pouca. Mais lojas e tendas de yogoberry (sorvete de iogurte de chá verde, pirante eu sei). O almoço foi no restaurante japonês do Leblon, que não me surpreendeu muito, mas mesmo assim, divino. Ainda andamos bastante por entre as sedutoras ruas de Ipanema, pegamos táxis cujos condutores não hesitavam antes de fazerem qualquer comentário de indignação com o trânsito ou com o próprio governo, coisa que achei muito curiosa. Mas quando finalmente voltamos, exaustas, o cochilo foi inevitável, e um pouco depois, ao final da tarde, fomos dar um rápido pulo à praia.

Esta sim, me encantou de todas as possíveis formas: O mar, a areia, a brisa, os dois irmãos… Pareciam conviver na mais perfeita harmonia, indiferentes à presença de quem quer que fosse. Não havia Sol escaldante ou superlotação de banhistas a disputarem um lugar na areia para estenderem-se junto à suas sombrinhas. Nada de crianças perdidas ou vendedores ambulantes insistentes a percorrerem o calçadão: A praia, tirando quem corria e se exercitava por ali, estava vazia, sem toda aquela poluição sonora e visual que costuma atormentar minhas viajens litorâneas, eu conseguia finalmente ouvir o som do mar a beijar o imenso leito de areia daquele lugar. E o ar, cada vez mais úmido, cada vez mais carregado de leveza. Pensava comigo mesma – Quero voltar nesse lugar, mais tarde, sozinha ou não, quero voltar.

Voltamos pra casa, meu tio chegou. Droga, a viajem tá acabando, disse eu. O jantar foi no Santa Satisfação e dispensa comentários – a minha sessão de desabafo também.

29/09/2009

Capítulo 3 – Com açúcar, com afeto

Confesso que uma das coisas que mais gostei na cidade foi o fato de poder observar uma completa estrutura metropolitana digna de São Paulo com uma variedade incrível de sistema de locomoção (incluindo linhas de metrô, ônibus, as convencionais avenidas e uma ciclovia em perfeito funcionamento), e ainda sim, poder desfrutar de um espetáculo natural atípico de cidades grandes como o litoral carioca e o cheiro onipresente daquela calma brisa do mar. Deve ser uma ilusão isso… Eu sei que morar no Rio deve ser bem diferente, bem mais complicado (vou falar mais disso pra frente), mas deixem-me suspirar um pouco por esse lugar que tanto me fez bem, mesmo com tão curto tempo de estadia.

Voltando aos relatos… Nossa manhã de domingo se resumiu basicamente em um longo passeio de carro por alguns pontos interessantes da cidade, com direito à guia turístico particular, daqueles que sabem da história de cada casebre abandonado ou construção – que é meu tio. Fomos inclusive na Barra da Tijuca, que na minha opinião, apesar de luxuoso e famoso, é um bairro recente cheio de obras inacabadas e sem história nenhuma! E claro, percorremos toda a área de Santa Teresa para chegarmos ao mirante Dona Marta e, mesmo não subindo todo o corcovado para tirar a tradicional foto com o Cristo Redentor, pude ver, ouvir e cheirar todo aquele panorama alternativo (e ainda sim, maravilhoso) da cidade, num Brasil que eu cansei de ver pela telinha da tevê, mas que era-me ainda tão desconhecido e surpreendente.

Tudo adquirira uma configuração desproporcionalmente linda quando vista ao vivo: As avenidas e viadultos, observadas do mirante, eram insignificantes veias pulsantes da cidade, abarrotados de carros sem destino algum; Os prédios coladinhos e achatados almejavam, em vão, arranhar o céu, enquanto a protuberante geografia daquele lugar ostentava seu tamanho e languidez, roubando a atenção turística para sua beleza natural que tantos ídolos meus já inspirara; A escultura parecia ganhar vida e até sorrir para mim: “Volte sempre!” dizia…

Algo que muito me chamou a atenção na ida ao mirante foi um peculiar indivíduo, que coincidentemente estava perto de nós com mais dois turistas, creio, cuja visão otimista a respeito do Rio e o grau de conhecimento que tinha da história do mesmo me fez tentar acompanhar a conversa, com um forte sotaque espanhol, através do pé do ouvido [quase] discretamente: O senhor trajava um terno em pleno verão carioca e a cada casa ou monumento que apontava e mostrava aos colegas, soltava frases carregadas de informações e observações interessantes sobre o passado da cidade, além de se sentir bastante entusiasmado com a candidatura do Rio para sede das Olimpíadas de 2016, pois achava que esta seria realmente uma cidade do futuro e que tem atingido um considerável nível de desenvolvimento.

Achei super legal! Pensava que todos os estrangeiros tinham uma visão pessimista do Brasil, mas ainda acho que somos nós quem nos sentimos submissos demais (assunto pra outro post, néam). Mas para meu desencanto tínhamos que ir embora e infelizmente pegamos um terrível congestionamento (sim, em pleno domingo) e eu adormeci no carro de tanto esperar naquelas filas intermináveis de automóveis. Quando acordei, finalmente chegávamos ao restaurante onde almoçaríamos (às 17h, huhu). Foi aí que eu conheci o Outback e as suas batatas gordurosas com cheddar, seu tema australiano e seu cardápio recheado de gostosuras que eu achava só existirem em desenhos animados.

De barriga cheia fomos pra casa descançar, e à noite, mais uma peça maravilhosa (também de Amir Haddad) – As Meninas – baseada na vida de Maitê Proença, mais especificamente focado em um dramático capítulo de sua vida – a morte de sua mãe, que fora esfaqueada pelo pai. Uma pitada de bom humor, muito drama e direito à pausa para uma rodinha de samba! Textos carregados de inocência, por parte das crianças, seriedade mórbida por parte dos mais velhos e ainda, muita poesia e ternura, dor e sinceridade por parte da mãe. Confesso ter enchido o olho d’água em certas cenas – o teatro é uma das artes que mais me emocionam – mas mais do que ter vontade de chorar, tive vontade de rir e me diverti bastante com essa autobiografia.

Saindo do “Laura Alvim” fomos ao Bob’s, porque estava perto e porque mesmo cercados de comida boa, honrávamos nossa natureza de ainda preferir o  fast food. Era de se esperar: O estabelecimento era maior que o MC Donald’s uberlandensce, mais bem decorado e frequentado, mais limpo e chamativo. Nas circunstâncias em que me encontrava, e vinda de uma cidade pequena, achei aquilo a coisa mais normal de todas, se é que me entendem. Não caímos na night, meu tio tinha um seminário pra ir bem cedo da manhã e já estava um pouco tarde. A saída foi nos recolhermos aos nossos aposentos.

26/09/2009

Capítulo 2 – A música do viado é boa

O apartamento em que ficamos, em Ipanema, era pequeno. Não, não pequeno! Era o suficiente para nós três, mas digamos que seu espaço era razoavelmente reduzido e, logo que acomodamos nossas bagagens, descemos para pegar um táxi rumo a qualquer restaurante ali por perto, afinal, a fome já batia e precisávamos almoçar. Mas em meio a tantos barezinhos, cafés e bistrôs charmosos dentro do próprio bairro, eis que surge a ideia de almoçar no Leblon, no restaurante que eu mais gostei em toda a viajem, e que definitivamente faz jus ao seu nome: Santa Satisfação!

O lugar era realmente aconchegante! Decoração provençal e atendimento impecável, mas a comida… prevalece e ganha por todos os outros quesitos. Era divina! Deliciosa! Não é à toa que suas paredes exibem as mais diversas e generosas recomendações gourmet  providas de revistas reconhecidíssimas, como a nossa cara Veja. Pedi o prato do dia: Salmão ao molho de alcaparras, camarão e arroz com alho poró, cozido cuidadosamente dentro de um tomate (incrível eu ainda me lembrar de todos esses detalhes culinários, normalmente não sei nem o que comi no café da manhã).

Enfim, almoçados, satisfeitos e… exaustos, mas mesmo exaustos retornamos ao apartamento à pé, pelo calçadão da praia que magicamente ligava todos os bairros daquela cidade (na minha imaginação), e onde presenciei uma das paisagens mais bonitas de toda minha vida. Pela frente, via o corcovado e o Cristo Redentor, bem esfumaçado e encoberto por nuvens, tão grande e magnífico ao vivo, parecia estar olhando por todo o Rio de Janeiro (isso porque eu nunca fui religiosa). Por trás via os dois irmãos, dominados pela favela do Vidigal, mas ainda sim, lindos. Fiquei impressionada com o tamanho do calçadão, parecia não terminar nunca! Lembro-me de ter andado bastante! Mas um pouco antes de chegar ao provisório lar, meu tio e a Lívia me mostraram a Estação de Cultura Laura Alvim, onde teria eu mais um caso de amor não correspondido.

Pelo pouco que li e ouvi sobre a história, Laura Alvim foi uma atriz frustrada que, querendo ainda contribuir com o cenário artístico de sua geração  transformou sua casa em palco para peças de teatro, abrigo de exibições cinematográficas normalmente não comerciais e exposições variadas, além de grande ponto de encontro de músicos, intelectuais e artistas da época. Ainda viva, doou sua casa para o governo do estado fluminensce, fazendo-a patrimônio cultural essencial para o Rio de Janeiro. A estação ainda está em atividade, no bairro de Ipanema, e é extremamente aconchegante e fiel, creio eu, ao que a dona de tudo aquilo sonhou um dia… Decoração de excelente bom gosto, salas de cinema, teatro e uma pequena livraria que imediatamente chamou minha atenção pelo tímido quadro do canto da porta que exibia uma imagem do mestre Cartola.

Mas a visita inicial foi breve, o sono e o cansaço da viajem falaram mais alto e finalmente chegamos em casa para tirar um cochilo. E que cochilo! Acordamos oito horas da noite, quase atrasados para o primeiro programinha: “Os Ignorantes” – peça de Amir Haddad consagrada por muitos anos como uma comédia trágica, e inteligente. O monólogo tem como protagonista Pedro Cardoso que é, em cena, um espetáculo à parte, e a história baseia-se na biografia de um poeta quase anônimo (cujo nome eu não consegui achar) que teve como obra reconhecida apenas uma, Os Ignorantes. Entre as diversas situações vividas pelos personagens, uma se destaca: O soldado que desconfiava da heterossexualidade de seu capitão, que nos rendeu tiradas geniais como o título deste… “A música do viado é boa” (uma espécie de piada interna, ou recomendação da peça para os caros leitores ficarem curiosos)

Dadas boas gargalhadas prolongamos a noite jantando num restaurante incrível da Pizza Hut onde pude de novo provar sua lendária pizza de quatro queijos. NHAME! E o assunto girava em torno da peça, e ríamos e imitávamos os personagens… E eu nunca pensei que justamente esses dois indivíduos me fariam tão boa companhia, haha, o mundo dá voltas!

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23/09/2009

Capítulo 1 – no avião

O relógio marca seis horas da manhã e tenho que ir para o aeroporto, o que já é uma raridade entusiasmante na minha vida, cheia de cerimônias e momentinhos epifânicos, observações e caipiragem por minha parte . A ideia de embarcar num avião nunca me aterrorizou, pelo contrário, des de pequena, nas pouquíssimas viajens que fiz, aproveitava cada instante do fascínio de “estar no céu” e ver todas aquelas pessoas de longe, como se fossem formigas. Fomos todos juntos: Eu, meu tio e a Lívia, companhias de fato muito agradáveis. E pulando diversos detalhes desnecessários para esse post (e ainda sim inesquecíveis para mim): O check-in foi feito e logo logo me via grudada à janelinha do avião, esperando a decolagem, com mil coisas na cabeça, mil problemas que esperava deixar pra trás ao finalmente sobrevoar a cidade.

Tudo era lindo! O cheiro, a comida fria, o ar pressurizado que quase rachava minhas lentes de contato e a atmosfera de ansiedade crescente de chegar finalmente ao Rio de Janeiro (tempo de viajem: 1h). Aterrizo em Congonhas e me surpreendo com o tamanho do aeroporto: gigante! Isso depois de ter me dado conta de que todo aquele grande espaço que eu julgava ser o aeroporto era apenas a sala de embarque. De SP para o RJ gastamos 40 minutos e, chegando na cidade, já avistava um litoral bastante peculiar, com uma beleza privilegiada que eu, sinceramente, não achava que seria tão bela. Chegava em Santos Dumont e mal podia esperar para conhecer aquela metrópole maravilhosa de que tanto ouvira falar.

Com um carro alugado no próprio aeroporto iniciamos nossa saga carioca dando um rolê pelo centro onde admirei as construções de uma cidade de 400 anos de história. A segunda* capital do Brasil, puxa vida! E o Cristo… óóó o Cristo Redentor! Impossível não avistá-lo. De vários pontos do Rio via-se o inconfundível corcovado, carregando em cima, a escultura que também não sabia que ao vivo seria tão alta e majestosamente… linda. Assim como a urca, e o pão de açúcar, os dois irmãos… Absurdamente lindos.

Estava eu, portanto, no Rio de Janeiro, sentindo um ar carregado de excessiva umidade e uma estranha amizade brasileira. Observava, através da janela do carro, seus predinhos coladinhos de arquitetura francesa, nos bairros centrais, atenciosamente e, maravilhada com tanta novidade não parava de contorcer meu pescoço para ver melhor aquelas estruturas antigas e grandiosas que não se contentavam com o chão. Incessantemente uma música tocava na minha cabeça, como trilha sonora de toda a paisagem, fazendo jus, com certeza, à toda aquela beleza… ei-la:

07/09/2009

um olhar retrospecto… e infeliz

Acordou de repente, atordoada por um pesadelo horrendo. Suava, como suava! As mãos estavam de novo geladas e recomeçavam-se os tremeliques e inquietações da alma desacordada. Tinha a aparência já assustadora: Extremamente magra, com os ossos saltando para fora. Os olhos esbugalhados, outrora tão azuis e encantadores, viam-se mergulhados em duas olheiras pavorosas e nitidamente marcadas pelo desespero de quem há tanto sofria. E o rosto, minha nossa… portador de arranhões e machucados, maior protagonista de seu desafortunado estado, encontrava-se tão pálido e esquelético que chegava a sumir por entre seus cabelos longos e negros, também tão mal cuidados quanto a dona.

Só hoje me dou conta de que suportou todas as dores sozinha, de que carregava infinitos arrependimentos em seus últimos dias, e que não ousava compartilhá-los com ninguém, com medo de que estes, viessem a apodrecer o interior de quem, de tão frágil, não suportaria tamanhas desgraças. Só hoje vejo que, não teve ela outra escolha senão sucumbir à mais completa loucura e deixar-se corroer pelos vermes da irrealidade traidora e fadigosa da sua própria cabeça. Já não conservava nenhuma capacidade de assimilação verossímil, vivia em constantes delírios e visões, cruzava a tênue linha entre a sua genialidade e o próprio túmulo que haveria de habitar. Minha menina definhava, aos poucos, dolorosamente…

Jamais me esquecerei de quando fui ver minha Catarina pela última vez. Tinha piorado significativamente da cabeça e quando entrei naquele mausoléu que ela insistia em chamar de casa, ouvi um urro estrondoso e carregado de dor vindo do quarto. Corri para ir ao seu encontro e me deparei com a cena mais forte e horripilante de toda minha vida, a qual carrego comigo como um fardo de culpa e tristeza profunda: Catarina encontrava-se no chão, tentanto erguer-se depois de ter caído da cama provavelmente. O cabelo lhe encobria todo o rosto e só conseguia ver uma fresta de seu olho a me fitar como para me pedir socorro. O ambiente tinha apenas resquícios de claridade e cheirava a mofo. O chão estava coberto de sangue, Catarina vomitara sangue! E chorava, e gemia, e urrava gritos altos e ensurdecedores, capazes de reduzir à cinzas o mais puro e feliz coração. Tinha as pernas unhadas e feridas, hematomas da própria doença que consumia a minha menina. Tomei-a pelos braços, para que sentisse minha presença e notei que estava incrivelmente fraca, pois apenas deitara-se em mim, sem conseguir me abraçar.

Quando é que tudo deu tão errado? Não deveria ter deixado-a tão sozinha, não, não deveria ter abandonado-a! Ela que tanto me ensinou, do mundo, dos dias e das noites, das culturas pagãs e ocultas, do amor e do fracasso, da perdição e da eterna burrice a que estamos fadados. Não ela, a quem acolhi como filha, amei como irmã e agora cuidava como mãe devotada. Sei que Catarina está jurada de morte pela própria vida, e que eu nunca mais serei a mesma.

Ajudei-a a se levantar e levei-a ao banheiro onde lavou-se de todo aquele sangue. Limpei o chão, mas estava tão transtornada com tudo o que se sucedera, que tive de sentar, pois começava a ter vertigens. Logo me levantei para deitar Catarina em seu leito, que fora, em outros tempos, abrigo de tantas noites em claro que passávamos juntas a conjecturar sobre os mais diversos assuntos proibidos. Minha menina, sempre tão eloquente e apaixonada, tão diferente… Abraçava o mundo todos os dias para que este o desprezasse aos sete infernos! Chorei. Chorei baixinho. Ela dormia, finalmente, em sono leve e não queria acordá-la.

Aproveitei a oportunidade para andar pela varanda daquela casa velha, o único lugar onde poderia ver a luz do Sol e onde fui contemplar as tulipas cultivadas pelo meu amor, em tempos de lucidez, agora tão murchas e secas, implorando por água fresca… Mas me despertavam lembranças daquele jardim, dos meus sonhos mais vivazes da alvorada da minha mocidade, da vida que antes levava, de quando ainda não havia presenciado o desencaminhamento da minha doce Catarina. Caio em pranto novamente, a chorar ajoelhada por entre as flores mortas, choro tanto que me falta ar, começo a soluçar incessantemente e depois de um curto intervalo de tempo, retorno à casa, bastante trêmula.

Aquele lugar estava há muito tempo fechado para o mundo e adquirira uma aparência tão doentia que me deixava ainda mais trêmula. Haviam livros de magia negra espalhados por toda a casa, quadros de imagens horripilantes de anjos, demônios e exus, velas apagadas como se, recentemente, tivessem testemunhado um culto de candomblé da mais obscura natureza. Tudo isso parecia distanciar bastante a imagem da minha antiga menina do que eu agora comprovava com meus próprios olhos: A queda da heroína da minha história, a tendência humana de se resvalar no filtro da maldade, eliminando quaisquer gotas de inocência e benevolência. Me soa agora muito óbvio, não deixando de ser assustador. E doía, como doía.

Subi para o quarto e fiquei a contemplar minha mocinha, tão abatida, que dormia um sono de súplicas, quando adormeci apoiada em seu leito. Não passou-se muito tempo quando de repente sinto Catarina apertar meu braço, acordando de um pesadelo, suada e assustada:

- Fala pra eles irem embora! Por favor! Diga a eles para me abandonarem de vez! Eu imploro, imploro! (Gritava ela em tom de desespero completo) – Diga à esse garotinho de olhos furados que não sou sua mãe! (Esperneava e contorcia-se bruscamente, e eu segurava seu braço e chamava por ela na vã tentativa de acalmá-la) – Diga! Eu não aguento mais! Olhe quantas pessoas nesse quarto! Me prostituam para o diabo! Não tenho um Deus, não tenho alma! Infeliz! Miserável! Tirem esses fantasmas de perto de mim!

Minha menina tornava-se cada vez mais pasma e inquieta, diz palavras sem nexo e não parecia querer olhar nos meu olhos, pelo contrário, fixa-os no pé da cama e no teto, parecendo ver espíritos em todos os lugares… Algo realmente medonho, que permeava meus piores receios: o contato com os extremos, com mundos superiores, influentes e, na minha imaginação, piores que a própria humanidade.

Eu não conseguia contê-la. Parecia estar indiferente à mim. Parecia não ser ela a própria Catarina. Por ora tremia e me olhava nos olhos, suando frio e sem poder dizer nada, mas às vezes franzia a testa e dava gargalhadas longas e malígnas, olhando para cima e contorcendo a coluna como se estivesse sendo puxada por alguém. Todo esse crítico estado da minha menina durou cerca de uma hora, e quando depois de lutas e muito esforço consegui sossegá-la, deitou sua cabeça em meu seio e fiquei a acariciar-lhe os cabelos molhados de suor e a disfarçar o estado de medo em que me encontrava. Foi quando olhei para minha mão e lágrimas inevitavelmente preencheram minha face: segurava tufos de cabelo da minha Catarina, que escorriam por entre meus dedos conforme eu tentava afogar meu pranto.

Ergui seu rosto, ela sorriu-me pela última vez e disse, beijando a mão que a segurava, em tom terno e melancólico:

- Me perdoa… Me perdoa!

Chorei ainda mais fortemente, não mais ouvia sua respiração ofegante e sentia-a muito fria. Caía o crepúsculo inconfundível das seis horas da tarde e tinha em meus braços o fim dos dias, o fim de tudo. Catarina faleceu na frieza de setembro, na indiferença do mundo, na carência de luz e ar fresco daquelas paredes. Fechei seus olhinhos azuis para que dormisse em paz e, abraçada à minha menina, sentia o vazio que haveria de habitar minhas entranhas até meus últimos dias.

Me desculpe por ter estado tão ausente.

Constantine_Gabriel_by_Juniperfern

22/07/2009

Chef d’oeuvre

Eu estava adiando. Estava mesmo. Confesso que escrever alguma coisa interessante, mesmo que apenas um comentário, sobre ‘cem anos de solidão’ do Márquez tem me parecido uma espécie de dever (nada fácil por sinal) que tenho a cumprir comigo mesma, depois de tanto tempo sem escrever e que tenho procrastinado bastante. Tenho que dizer que, des do momento em que finalizei a obra, procuro incessantemente palavras para tentar construir uma opinião consisa e interessante sobre a mesma. Em vão. A complexidade da história, relatada ao mesmo tempo de forma tão simples, me deixou intrigada e as tentativas de penetrar nas ideias mais primitivas do autor e entender, mesmo que em parte, a subjetividade do enredo, foram frustradas.

Creio que a presença de tantos simbolismos no livro instiga o leitor a fazer analogias e suposições durante toda a leitura, e não apenas digerir os fatos sem conexão ou relação entre si. Simbolismos tais como a presença significativa de insetos em algumas passagens (os escorpiões que rodeavam Amaranta e Rebeca no começo da história, as borboletas amarelas a perseguirem Meme e as formigas ruivas a arruinarem a casa, já em seus últimos dias); A noção bem distorcida do tempo histórico dos acontecimentos e da própria existência de Macondo e seus habitantes (como se não passasse, e apenas girasse em círculos viciosos); Os personagens, seus hábitos e suas manias, (com certeza escondem algo muito maior em si, significam muito mais do que simplesmente aparentam ser); Os objetos domésticos mais  comuns presentes na história também simbolizam algo que, ao meu ver, soa como uma icógnita (os peixinhos de ouro do Coronel Aureliano Buendía, os santos espalhados pela casa, o retrado de Remedios que nunca saíra da parede, os pergaminhos de Melquíades); A estirpe da família e o isolamento da casa que, des de sempre parecia se separar do resto do povoado, do resto do mundo, e fora abrigo dos cem anos de gerações Buendía e seus infortúnios, raros sorrisos e muita solidão.

Meu professor de inglês bem me disse que eu não pegaria o verdadeiro espírito da obra, que não entenderia as intenções do autor e que eu não ia me tocar do porque da história ser considerada uma das mais autênticas e legítimas sobre a América Latina (ele leu o livro seis vezes, umhum, seis vezes. Um belo dia ele me viu o carregando e pediu para que eu abrisse na primeira página e começou a profeciar as palavras do primeiro capítulo, assim, de cabeça, sem ler nem nada). Gostaria mesmo de ter a capacidade de relacionar tudo isso com a saga da nossa existência, se tomarmos a família como a raça humana e o povoado como o mundo. Gostaria de saber decifrar o ocultismo que recobre as trinta e duas guerras ganhadas ou perdidas pelo Coronel, os efeitos da Companhia Bananeira sobre Macondo, o dilúvio e junto a ele, o fim dos tempos e daquelas poucas pessoas que esperavam, em suas casas, a chuva estiar…

Por fim, com simbolismos ou não, sou obrigada a dizer que todos esse mistério que permeia os cápítulos do romance me encantou incontestavelmente, a ponto de fazê-lo entrar pros meus favoritos (e por que não O favorito?) e acho que as únicas coisas que tenho como certas nesse breve comentário é o sentimento de nostalgia que sempre me tomará todas as vezes em que me por a refletir sobre uma das minhas personagens favoritas, Úrsula, a matriarca da família, a única a manter-se sana e sensível á todos os acontecimentos e tempestividades da casa até seus últimos dias de vida; e a vontade de ler novamente a história que embalava minhas noites de insônia e mergulhar nessa atmosfera imprevisível e até meio lunática construída pela genialidade de Gabriel García Márquez.

cem anos