Acordou de repente, atordoada por um pesadelo horrendo. Suava, como suava! As mãos estavam de novo geladas e recomeçavam-se os tremeliques e inquietações da alma desacordada. Tinha a aparência já assustadora: Extremamente magra, com os ossos saltando para fora. Os olhos esbugalhados, outrora tão azuis e encantadores, viam-se mergulhados em duas olheiras pavorosas e nitidamente marcadas pelo desespero de quem há tanto sofria. E o rosto, minha nossa… portador de arranhões e machucados, maior protagonista de seu desafortunado estado, encontrava-se tão pálido e esquelético que chegava a sumir por entre seus cabelos longos e negros, também tão mal cuidados quanto a dona.
Só hoje me dou conta de que suportou todas as dores sozinha, de que carregava infinitos arrependimentos em seus últimos dias, e que não ousava compartilhá-los com ninguém, com medo de que estes, viessem a apodrecer o interior de quem, de tão frágil, não suportaria tamanhas desgraças. Só hoje vejo que, não teve ela outra escolha senão sucumbir à mais completa loucura e deixar-se corroer pelos vermes da irrealidade traidora e fadigosa da sua própria cabeça. Já não conservava nenhuma capacidade de assimilação verossímil, vivia em constantes delírios e visões, cruzava a tênue linha entre a sua genialidade e o próprio túmulo que haveria de habitar. Minha menina definhava, aos poucos, dolorosamente…
Jamais me esquecerei de quando fui ver minha Catarina pela última vez. Tinha piorado significativamente da cabeça e quando entrei naquele mausoléu que ela insistia em chamar de casa, ouvi um urro estrondoso e carregado de dor vindo do quarto. Corri para ir ao seu encontro e me deparei com a cena mais forte e horripilante de toda minha vida, a qual carrego comigo como um fardo de culpa e tristeza profunda: Catarina encontrava-se no chão, tentanto erguer-se depois de ter caído da cama provavelmente. O cabelo lhe encobria todo o rosto e só conseguia ver uma fresta de seu olho a me fitar como para me pedir socorro. O ambiente tinha apenas resquícios de claridade e cheirava a mofo. O chão estava coberto de sangue, Catarina vomitara sangue! E chorava, e gemia, e urrava gritos altos e ensurdecedores, capazes de reduzir à cinzas o mais puro e feliz coração. Tinha as pernas unhadas e feridas, hematomas da própria doença que consumia a minha menina. Tomei-a pelos braços, para que sentisse minha presença e notei que estava incrivelmente fraca, pois apenas deitara-se em mim, sem conseguir me abraçar.
Quando é que tudo deu tão errado? Não deveria ter deixado-a tão sozinha, não, não deveria ter abandonado-a! Ela que tanto me ensinou, do mundo, dos dias e das noites, das culturas pagãs e ocultas, do amor e do fracasso, da perdição e da eterna burrice a que estamos fadados. Não ela, a quem acolhi como filha, amei como irmã e agora cuidava como mãe devotada. Sei que Catarina está jurada de morte pela própria vida, e que eu nunca mais serei a mesma.
Ajudei-a a se levantar e levei-a ao banheiro onde lavou-se de todo aquele sangue. Limpei o chão, mas estava tão transtornada com tudo o que se sucedera, que tive de sentar, pois começava a ter vertigens. Logo me levantei para deitar Catarina em seu leito, que fora, em outros tempos, abrigo de tantas noites em claro que passávamos juntas a conjecturar sobre os mais diversos assuntos proibidos. Minha menina, sempre tão eloquente e apaixonada, tão diferente… Abraçava o mundo todos os dias para que este o desprezasse aos sete infernos! Chorei. Chorei baixinho. Ela dormia, finalmente, em sono leve e não queria acordá-la.
Aproveitei a oportunidade para andar pela varanda daquela casa velha, o único lugar onde poderia ver a luz do Sol e onde fui contemplar as tulipas cultivadas pelo meu amor, em tempos de lucidez, agora tão murchas e secas, implorando por água fresca… Mas me despertavam lembranças daquele jardim, dos meus sonhos mais vivazes da alvorada da minha mocidade, da vida que antes levava, de quando ainda não havia presenciado o desencaminhamento da minha doce Catarina. Caio em pranto novamente, a chorar ajoelhada por entre as flores mortas, choro tanto que me falta ar, começo a soluçar incessantemente e depois de um curto intervalo de tempo, retorno à casa, bastante trêmula.
Aquele lugar estava há muito tempo fechado para o mundo e adquirira uma aparência tão doentia que me deixava ainda mais trêmula. Haviam livros de magia negra espalhados por toda a casa, quadros de imagens horripilantes de anjos, demônios e exus, velas apagadas como se, recentemente, tivessem testemunhado um culto de candomblé da mais obscura natureza. Tudo isso parecia distanciar bastante a imagem da minha antiga menina do que eu agora comprovava com meus próprios olhos: A queda da heroína da minha história, a tendência humana de se resvalar no filtro da maldade, eliminando quaisquer gotas de inocência e benevolência. Me soa agora muito óbvio, não deixando de ser assustador. E doía, como doía.
Subi para o quarto e fiquei a contemplar minha mocinha, tão abatida, que dormia um sono de súplicas, quando adormeci apoiada em seu leito. Não passou-se muito tempo quando de repente sinto Catarina apertar meu braço, acordando de um pesadelo, suada e assustada:
- Fala pra eles irem embora! Por favor! Diga a eles para me abandonarem de vez! Eu imploro, imploro! (Gritava ela em tom de desespero completo) – Diga à esse garotinho de olhos furados que não sou sua mãe! (Esperneava e contorcia-se bruscamente, e eu segurava seu braço e chamava por ela na vã tentativa de acalmá-la) – Diga! Eu não aguento mais! Olhe quantas pessoas nesse quarto! Me prostituam para o diabo! Não tenho um Deus, não tenho alma! Infeliz! Miserável! Tirem esses fantasmas de perto de mim!
Minha menina tornava-se cada vez mais pasma e inquieta, diz palavras sem nexo e não parecia querer olhar nos meu olhos, pelo contrário, fixa-os no pé da cama e no teto, parecendo ver espíritos em todos os lugares… Algo realmente medonho, que permeava meus piores receios: o contato com os extremos, com mundos superiores, influentes e, na minha imaginação, piores que a própria humanidade.
Eu não conseguia contê-la. Parecia estar indiferente à mim. Parecia não ser ela a própria Catarina. Por ora tremia e me olhava nos olhos, suando frio e sem poder dizer nada, mas às vezes franzia a testa e dava gargalhadas longas e malígnas, olhando para cima e contorcendo a coluna como se estivesse sendo puxada por alguém. Todo esse crítico estado da minha menina durou cerca de uma hora, e quando depois de lutas e muito esforço consegui sossegá-la, deitou sua cabeça em meu seio e fiquei a acariciar-lhe os cabelos molhados de suor e a disfarçar o estado de medo em que me encontrava. Foi quando olhei para minha mão e lágrimas inevitavelmente preencheram minha face: segurava tufos de cabelo da minha Catarina, que escorriam por entre meus dedos conforme eu tentava afogar meu pranto.
Ergui seu rosto, ela sorriu-me pela última vez e disse, beijando a mão que a segurava, em tom terno e melancólico:
- Me perdoa… Me perdoa!
Chorei ainda mais fortemente, não mais ouvia sua respiração ofegante e sentia-a muito fria. Caía o crepúsculo inconfundível das seis horas da tarde e tinha em meus braços o fim dos dias, o fim de tudo. Catarina faleceu na frieza de setembro, na indiferença do mundo, na carência de luz e ar fresco daquelas paredes. Fechei seus olhinhos azuis para que dormisse em paz e, abraçada à minha menina, sentia o vazio que haveria de habitar minhas entranhas até meus últimos dias.
Me desculpe por ter estado tão ausente.


